Inovação é o caminho para acelerar melhorias na educação

Estudo da The Brookings Institution defende que sistemas educacionais precisam, urgentemente, promover o desenvolvimento de habilidades que preparem todos os estudantes para vencer desigualdades e desafios de um mundo instável

Texto por: Fernanda Nogueira

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O relatório global “Podemos dar um salto? O potencial das inovações educacionais para acelerar rapidamente o progresso”, da organização americana sem fins lucrativos The Brookings Institution traz um retrato da educação no mundo atual, repleta de desigualdades e incertezas, e mostra como é urgente fazer melhorias para acelerar o desenvolvimento de habilidades que preparem todos os estudantes para vencer os desafios de um mundo instável.

Elaborado pela diretora e membro sênior do Center for Universal Education da The Brookings Institution Rebecca Winthrop, pela ex-pesquisadora associada da instituição Eileen McGivney e pelo pesquisador assistente do centro Adam Barton, o relatório traz 15 fontes de informação, entre elas a plataforma InnoveEdu, do Porvir, que listou 96 experiências educacionais inovadoras espalhadas pelo planeta. Outros exemplos são organizações como a Ashoka, que busca inovadores sociais e escolas que desenvolvam habilidades nos jovens para o empreendedorismo social, e a Results for Development (R4D) Center for Education Innovations, que atua com programas em países de baixa e média renda.

“Nosso objetivo é compartilhar ideias que possam inspirar governos orientados para a ação, organizações da sociedade civil, educadores, investidores filantrópicos e membros da comunidade empresarial para considerar seriamente a perspectiva de um progresso educacional rápido e não linear e refletir sobre o que mais precisa ser feito para tornar o salto na educação uma realidade”, explica o relatório. Para isso, o estudo foi dividido em cinco partes: por que precisamos acelerar?; o que significa acelerar; podemos acelerar?; como acelerar e, por último, o potencial para acelerar.

Segundo a pesquisa, os dois principais desafios globais da educação são as desigualdades e as incertezas. As desigualdades na forma como os sistemas educacionais formais desenvolvem as habilidades de alunos de diferentes classes sociais criaram o que os estudiosos chamam de “intervalo de 100 anos”. Isso significa que na velocidade em que as mudanças ocorrem na educação atual, vai levar décadas ou até séculos para que estudantes de baixo poder aquisitivo desenvolvam as mesmas capacidades que alunos de alto poder aquisitivo

“Através de uma análise cuidadosa dos dados educacionais em todo o mundo, a Education Commission (International Commission of Financing Global Education Opportunity) prevê que, até 2030, mais da metade dos dois bilhões de crianças do planeta não estarão no bom caminho para alcançar habilidades básicas no nível secundário, incluindo alfabetização, aritmética, resolução de problemas e pensamento crítico”, mostra o relatório. A situação é pior nos países de baixa renda, onde 92% dos estudantes não atingirão o mínimo de competências, contra 51% dos alunos das nações de média renda e 30% nos países de alta renda.

Além disso, há incertezas sobre que competências as crianças vão precisar no futuro, tanto para a vida profissional, quanto para atuarem como cidadãos responsáveis. Algumas das habilidades procuradas pelos empregadores de hoje, segundo o estudo, são aquelas exclusivamente humanas e que complementam as tecnologias digitais, como comunicação, trabalho em equipe, resolução de problemas, pensamento crítico e flexibilidade. No entanto, a maioria das escolas não tem essa preocupação. Por isso é tão urgente a necessidade de acelerar as melhorias.

Saber lidar com a incerteza, a complexidade e as rápidas mudanças está se tornando o desafio central dos nossos filhos. A pergunta para a educação é se ela é capaz de permitir que nossas crianças atinjam este objetivo

Mas o que significa isso? Segundo o relatório, o modelo prussiano de escola, que oferece uma educação em massa, universal e compulsória, em vigor desde o século 18, trouxe muitos benefícios sociais e econômicos, mas não consegue responder aos desafios atuais. A escola precisa ser transformada em dois aspectos principais: o que os estudantes aprendem e como aprendem.

Eles precisam desenvolver uma gama maior de capacidades, que vá além das acadêmicas, e devem participar de atividades mais mão na massa, prazerosas e experienciais, exercitando a curiosidade, o espírito empreendedor, a criatividade e a resiliência. “Saber lidar com a incerteza, a complexidade e as rápidas mudanças está se tornando o desafio central dos nossos filhos. A pergunta para a educação é se ela é capaz de permitir que nossas crianças atinjam este objetivo”, dizem os pesquisadores.

O estudo afirma que acelerar não significa necessariamente pular etapas, mas percorrer outros caminhos, o que demanda inovação, entendida como abandonar práticas antigas e adotar novas maneiras de educar, que não necessariamente são desconhecidas, mas ainda não são aplicadas nas escolas regulares. Um exemplo é o ensino centrado no aluno, prática pedagógica conhecida e estudada por teóricos e educadores como o brasileiro Paulo Freire e o americano John Dewey, mas ainda pouco utilizada.

“Apoiar a pesquisa dos alunos, fundamentar o aprendizado nas experiências da vida cotidiana e fomentar a experimentação são características de abordagens de educação progressiva. Essas abordagens compartilham o compromisso de colocar o aluno no centro do processo de aprendizagem, e muitas também se concentram em experiências educacionais que se preocupam não apenas com o que os alunos sabem, mas com o que eles podem fazer com o que sabem”, afirma o relatório da Brookings.

Os estudiosos participantes da pesquisa levantam algumas questões, como: é possível abordar as desigualdades e as incertezas ao mesmo tempo?, concentrar as atenções em uma das abordagens necessariamente causa distração em relação à outra?, e como podemos mudar a escola sem perder o compromisso com os princípios da educação em massa?

Para mostrar como acelerar as melhorias na educação, os especialistas pesquisaram 2.855 inovações em 166 dos países do mundo. A maioria delas é dirigida a estudantes em situação de vulnerabilidade ou com baixo poder aquisitivo. O foco principal da maioria é dado ao ensino básico, mas o desenvolvimento dos jovens para o trabalho e a primeira infância também têm importância significativa.

“Acelerar pode assumir várias formas dependendo do contexto. No que chamamos de ‘bom’ salto, as inovações poderiam, por exemplo, apoiar novas maneiras de as crianças dominarem, fora da escola, os principais conteúdos acadêmicos, abordando a desigualdade de habilidades mais rapidamente do que o ritmo atual de mudança prevê. O ‘melhor’ salto, no entanto, é aquele que aborda as desigualdades e incertezas das habilidades ao mesmo tempo”, diz o relatório.

Confira o artigo completo em: http://porvir.org/inovacao-e-caminho-para-acelerar-melhorias-na-educacao/